80% da Geração Z defendem semana de 4 dias e não sabem quanto tempo precisam trabalhar por semana

Um memorando interno da Google, assinado pelo cofundador Sergey Brin, reacendeu a discussão sobre carga horária e produtividade no ambiente corporativo. No documento direcionado à equipe do projeto Gemini, Brin sugeriu que uma jornada de 60 horas semanais representa o "ponto ideal" para a eficiência profissional. No entanto, especialistas alertam que essa prática pode ser insustentável a longo prazo e suscita questionamentos sobre limites entre desempenho e bem-estar dos trabalhadores.
Carga horária excessiva e impactos na carreira
O conceito de dedicação extrema como ferramenta de ascensão profissional não é recente. No mercado financeiro, por exemplo, jornadas de 80 a 100 horas semanais são relatadas por profissionais em início de carreira. No JPMorgan, o CEO Jamie Dimon chegou a impor um teto de 80 horas para os banqueiros juniores, enquanto em Wall Street há registros de semanas que ultrapassam esse limite.
Para Dan Kaplan, codiretor da ZRG Partners, a percepção de que trabalhar apenas 40 horas por semana limita o crescimento profissional é uma realidade do mercado. "O que está em discussão não é o número exato de horas, mas sim a ideia de que o trabalho precisa ser concluído, independentemente do tempo investido", destaca.
A mudança de paradigma e a influência da Geração Z
Nos últimos anos, especialmente após a pandemia de COVID-19, houve uma reavaliação sobre a relação entre trabalho e qualidade de vida. A ascensão da Geração Z no mercado tem reforçado esse debate, uma vez que esse grupo defende maior equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Pesquisas recentes indicam que aproximadamente 80% dos trabalhadores dessa geração apoiam a implementação da semana de quatro dias, sugerindo uma nova perspectiva sobre produtividade.
O modelo tradicional de segunda a sexta-feira, com expediente fixo, está sendo questionado. Empresas de tecnologia e startups têm experimentado formatos alternativos, priorizando entregas e resultados em detrimento de jornadas fixas. Essa abordagem contrasta com o pensamento defendido por Brin no memorando, onde ele sugere que profissionais que não trabalham as 60 horas semanais estariam se limitando ao mínimo exigido, o que poderia impactar negativamente a motivação da equipe.
Jornada de 60 horas: risco de esgotamento e impactos na produtividade
Embora não haja um consenso sobre a carga horária ideal, especialistas alertam para os efeitos negativos de jornadas excessivas. Estudos apontam que o trabalho prolongado está associado ao aumento do esgotamento profissional, queda na produtividade e prejuízos à saúde. O conceito de estar "sempre disponível" pode comprometer o engajamento dos colaboradores, resultando em maior rotatividade nas empresas.
Jackie Dube, diretora de pessoal da empresa de software The Predictive Index, destaca que "momentos de pressão e desafios exigem esforço adicional, mas manter uma carga de 60 horas por semana de forma contínua tende a ser contraproducente". Para ela, a jornada de 40 horas ainda é considerada sustentável e permite ajustes conforme as demandas das empresas variam ao longo do tempo.
A tendência atual no mundo corporativo é valorizar a eficiência em vez da presença prolongada no ambiente de trabalho. Modelos flexíveis estão sendo adotados por grandes organizações, permitindo que os profissionais administrem melhor seu tempo e entreguem resultados sem comprometer sua saúde.
A trajetória profissional e as escolhas da Geração Z
Diante desse cenário, os profissionais em início de carreira enfrentam um dilema: investir mais tempo no trabalho para ascender rapidamente ou equilibrar esforço e qualidade de vida a longo prazo. Jasmine Escalera, especialista em carreiras da MyPerfectResume, acredita que "o crescimento profissional depende mais da produção e aprendizado do que do número de horas trabalhadas".
Para aqueles que buscam acelerar a ascensão, a dedicação intensiva nos primeiros anos pode ser uma estratégia válida. "A maioria das pessoas aprende fazendo. Envolvimento em múltiplos projetos e colaboração com diferentes equipes geram experiência mais rapidamente", explica Dube.
Contudo, manter limites claros continua sendo essencial. O bem-estar e a saúde mental são aspectos cada vez mais valorizados, e a Geração Z demonstra resistência a práticas tradicionais que priorizam apenas a produtividade financeira. Kaplan reforça que "sucesso profissional é uma combinação de diversos fatores, e trabalhar longas horas de forma contínua pode resultar em efeito reverso, comprometendo a performance e a qualidade de vida".
O futuro do trabalho e a busca por equilíbrio
Com a evolução do mercado e o surgimento de novas dinâmicas profissionais, a rigidez das jornadas de trabalho está sendo desafiada. A adoção de sistemas mais flexíveis e o foco na produtividade podem redefinir o conceito de eficiência corporativa nos próximos anos. Empresas que souberem equilibrar exigência e bem-estar tendem a obter maior retenção de talentos e melhores resultados.
A discussão sobre carga horária permanece aberta, e a busca por um modelo que concilie desempenho e qualidade de vida continua sendo um dos grandes desafios do ambiente de trabalho moderno.
Fonte: Contábeis